sexta-feira, 18 de abril de 2025

"Pai, perdoa-lhes..."

 


Hoje, 18 de abril de 2025. Sexta santa. Para quem se declara cristão, de qualquer denominação, é dia de reflexão. Aliás, é mais um dia de reflexão, pois estes são chamados a refletir sobre os mistérios da vida de Jesus Cristo. Mas é um dia particular, verdade seja dita.

Há muito tempo quero escrever sobre isso, mas o tempo não permitiu. No início desse dia, talvez conduzido pela providência, compartilho esse texto.

Ouvimos falar muito sobre o amor. Em tempos onde pólos no campo das idéias são definidos, e as pessoas que assumem uma ou outra idéia para si, o amor parece ser uma intersecção entre eles. Cada um a seu modo, claro. Para uns, o amor é manter os costumes e procurar mantê-los. Para outros é entender que há quem quer romper com eles e prover as condições para isso. Não poucas vezes Jesus é evocado nos discursos de cada um justificando seus posicionamentos. Até aí, tudo bem. Mas até o momento, eu jamais escutei de nenhum dos lados a expressão "perdão". Nunca ouvi conservadores falarem isso. Nem mesmo, progressistas. É curioso. O Jesus, evocado por ambos fez, e ensinou a fazer isso muitas vezes. 

Dois eventos que eu considero icônicos, que serão rapidamente descritos, são a passagem da mulher adúltera e o uma frase de Jesus no alto da cruz. No primeiro, uma mulher adúltera é apresentada sendo apontado o seu pecado, e Jesus é questionado se ela devia ou não ser apedrejada. Após um diálogo de Jesus com seus acusadores, Ele, com uma única pergunta, que também estabelecia um critério, como que desconcerta a todos: é possível que aquela mulher seja apedrejada. Basta que quem atire a pedra, não tenha pecado. Já sabemos. Ninguém atirou pedras. O Mais importante vem agora: Jesus disse à mulher: "eu não te condeno". E também: "Vai e não tornes a pecar" (Jo 8, 1-11)

O segundo evento é também curioso, que será refletido no dia de hoje: Após todo o caminho do calvário e ser crucificado, Jesus se encontrava junto com outros dois condenados. Ali, Ele diz "Pai, perdoa-lhes. eles não sabem o que fazem". (Lc 23, 24).

São bem curiosas essas passagens. Elas falam de perdão. Logicamente existem outras. Mas olhando para elas, podemos inferir claramente que Jesus ensina a perdoar. Ele, que é amor, perdoa quem erra e de modo particular quem o fere (praticamente perdoa quem o mata). Nós, que pertencendo a um polo ou outro no campo das idéias, que somos conservadores ou progressistas, que agimos em nome do amor que, segundo nossas compreensões, Jesus teve, também perdoaríamos? Perdoaríamos aqueles que erraram? perdoaríamos os que pensam diferente de nós? perdoaríamos quem cometeu atitudes contra causas que são caras para nós? Ou nós já temos nosso juízo pronto, onde condenamos dentro de nós, e até mesmo publicamente, todos os que fogem da nossa régua, porque afinal é inadmissível tal coisa? Nosso amor é como o dele, e faríamos por isso o que ele faz, como perdoar, especialmente se ultrajados? Ou nosso amor exclui esse aspecto, e na melhor das hipóteses o restringe de acordo com nossas subjetividades? Se sim, ainda podemos dizer que amamos?

Alguém pode pensar: "Mas perdoar os inimigos é exigente demais". Até concordo. Mas foi o que o Jesus, que é colocado como exemplo em tantos discursos, fez. Logo, usá-lo como exemplo nas discussões e não seguir seu exemplo, não seria no mínimo uma instrumentalização dEle? Conseguimos enxergar isso? ou preferimos acreditar nas idéias que criamos?