Minha última postagem foi exatamente nessa época de círio,
há dois anos. Escrevo essa postagem ao acompanhar pela TV a procissão do Círio
2016. Não sei se considero esse texto uma postagem, ou uma oração. Você
escolhe. É incrível como para um paraense, ainda que não necessariamente
nascido em Belém como é o meu caso, o Círio é ocasião mais que oportuna para
encontros, reencontros e recomeços.
Encontros. Ontem ao estar na trasladação junto com minha
irmã pude observar tantos rostos se encontrando, percebi um homem com um código
civil, outro com uma casinha na cabeça, entre muitos. Fiquei pensando na
quantidade de histórias que se entrelaçam no círio. Pessoas que vêm pedir e
agradecer. Pedir e agradecer pela saúde, pela casa, pelo emprego, pela alheia e
pela própria conversão. Esta última talvez mais demorada e morosa de se obter.
Reencontros. Talvez não passe despercebido a quantidade de
pessoas que estão nas ruas durante a procissão, e comparar com a participação e
engajamento pastoral ao longo do ano nas muitas paróquias de Belém. De onde
saíram, já que não estão nas paróquias? Pouco importa a resposta. O fato é que elas
vêm ao encontro da Mãe, que está a espera de todos! Sim, de todos. Quem está
ali, esperando a passagem da imagem peregrina? Pessoas que talvez há tanto
tempo sem participar de uma missa por diversos motivos: por não se considerarem
dignas talvez, por se considerarem rejeitadas por escolhas, por entender que aquele
conjunto de valores ensinado pela Igreja não mais se aplicam à sua vida, por
terem mágoas com pessoas, ou por não terem tempo devido o trabalho, enfim,
tantos motivos. Essas pessoas estão ali. Esperando a “Nazinha”. Ou melhor, é
Ela que está esperando cada um, com tudo o que trazem, independente de como
estão: se são pessoas ricas, pobres, educadas, formadas, íntegras ou não, com
caráter ou não, justas ou não, que lutam para buscar a santidade, ou não. Todos
são filhos... Filhos que encontram com a mãe. É impossível ficar indiferente e
não se emocionar, por saber que mesmo distantes, a mãe vêm ao encontro deles.
Não somente vem ao encontro, mas os arrasta para aquele mar de Amor, para
reencontrar o Amor que está em seu colo.
Recomeços. Observar o círio me faz olhar a misericórdia de Deus,
que acolhe a simplicidade das pessoas, como as citadas no último parágrafo, que
vêem nessa festa sua oportunidade de aproximação com Deus, como uma redenção,
como a cena da pecadora que chega aos pés de Jesus e chora, lavando os pés dEle
e enxugando-os com seus cabelos. Me faz pensar também na minha vida como homem
que caminha para a vida consagrada, e refletir como tenho vivido. Acaba de
certa forma sendo muito comum para mim e para muitos que têm vocação para a
vida consagrada e a assumem, estar nesses momentos. Sabemos falar argumentos
querigmáticos, catequéticos, teológicos... Mas esses momentos de círio nos
desconcertam. Essas pessoas são alcançadas de um modo tão forte por Deus
através de Maria, através de um momento que para nós seria talvez mais uma procissão,
mais um evento dos milhares que já participamos. Me perdoem a audácia da
comparação, mas talvez uma migalha de um banquete. Mas para a grande maioria
dos romeiros é o momento, é o encontro, é talvez uma migalha sim, mas que
sacia, que preenche, que os fazem se sentir amados. De fato, isso me faz
questionar minha postura, e desejar amar mais. Ir ao encontro, como a Mãe vai,
misericordiar, como Deus faz com o povo paraense através do círio.
É círio outra vez...