Todos os domingos, era comum, durante o preparo do almoço, meu pai colocar o seu som em alto volume. ele escolhia um LP de vinil colocava em seu equipamento, que ele morria de ciúmes, e fazia o almoço da familia. ninguém podia entrar na cozinha. Um desses LPs era do Willie Nelson, um cantor de Jazz americano, cujo álbum “Stardust”, cuja primeira faixa tem o mesmo nome, ele comprou e dizia que, quando eu saí da maternidade, ele o colocou pra tocar pra marcar minha entrada em casa com a mamãe, a @verac.araujo. Eu, pessoalmente, não gostava dessa música. Achava ela chata. Enfim. Vivi muitas experiências com meu velho. De um menino cheio de birra, passando por um adolescente cheio de si, um jovem que ainda precisava amadurecer muito até o adulto que eu sou hoje, que descobriu que nunca estará suficientemente pronto para qualquer coisa, tive várias lentes em meus olhos através das quais enxerguei meu pai. Já o vi como meu herói e também como meu inimigo. imaginem.
Ele tinha orgulho de sua família. andava com um álbum com as fotos dos filhos tiradas por ele, e dizia todas as conquistas deles. Falando em fotos, isso era uma coisa que ele amava. As ocasiões celebrativas ele preparava a câmera com o filme, seu tripé e tirava fotos. Primeiro ele e a minha mãe, os meninos do lado e a menina no meio. Depois todo mundo sentado. depois com as nossas avós. agora todos em pé de novo. Não tínhamos idéia da análise combinatória da cabeça dele pra formular tantas combinações. Nós, os filhos morríamos. o Sandoval também pulou muitas fogueiras. Sobreviveu a um naufrágio em 2003. Sobreviveu a primeira etapa do câncer em 2018 e à COVID em 2021. Ele colecionava datas de nascimento.
Após a recidiva do câncer em 2022, Deus preparava a nossa família para sua partida. Os efeitos da doença, progressivos mesmo com o tratamento, mostravam sua força. Nós, os filhos e esposa com nossos sofrimentos próprios. Nesse caminho, vivi duas experiências belíssimas. Depois de saber que ele não ia melhorar e de termos nos despedido dele, ainda acordado, a visita de um dos filhos de seus amigos de infância, colocou em seu rosto um belíssimo sorriso. Nunca me fizeram um bem como esse: de fazer alguém que eu amo, no auge de um grande sofrimento, sorrir. Por fim, com ele já sedado, mas vivo, lembrei da música, stardust, que ele tanto falava. A mesma que eu dizia que não gostava. e senti que era minha vez de cantar essa música pra ele. Aprendi a letra, e com a autorização do médico, naquela UTI fria, sem que ele pudesse esboçar nenhuma reação pelos efeitos da sedação eu cantava “...my stardust melody, the memory of love refrain”, como que dizendo. Obrigado por tudo velhinho.
Em 28 de Abril de 2023, partia para o céu, o seu San.