Tenho pensado em tantas coisas que tenho ouvido não ao longo dos últimos dias, mas pelo menos nos últimos dois anos. A importância das pessoas: do respeito a elas, do valor que elas tem. Parece que o valor do ser humano é consenso segundo alguns discursos. Mas na prática não é bem assim. Se o mundo chora as vidas ceifadas pelo coronavírus, porque os veículos de comunicação mostram e suportam as pessoas no cobrar das autoridades meios para controlar e até mesmo erradicar, o mundo também é levado a se indignar pela dificuldade de enxergar a necessidade de uma criança de 10 anos, abusada pelo tio, que engravidou do mesmo, a abortar o fruto desse trauma. Afinal, especialistas dizem que essa é a melhor solução. O agressor dessa criança, está foragido. Onde está ele? Aliás, eu gostaria de tecer meu comentário sobre a pessoa dele, que eu conheço apenas como agressor.
Jean Jacques Rosseau, disse que o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe. Me perguntei outro dia, como essa sociedade, que é feita de homens que nasceram bons, se corrompeu, e por conseguinte, corrompeu esse homem, que Rosseau falou, que nasceu bom. Esse agressor pode ser enquadrado nesse caso? ele também nasceu bom? ou ele já nasceu com essa maldade? Me permita levantar algumas questões: Temos um mundo hipersexualizado, onde a sensualidade e uma vivência sexual precoce é estimulada em comerciais, em conversas de duplo sentido, em programações de TV abertas, em filmes, etc. Isso se tornou um valor. Muitos jovens através dos seus smartphones têm tido grande acesso á pornografia. Esses elementos ajudam a enxergar o outro com o seu valor enquanto ser humano? Quando os pais dessas crianças, adolescentes, jovens conversam com eles sobre isso, qual o nível de profundidade para ajudá-los a discernir em meio a tudo isso, o valor do outro? Qual o efeito de tudo isso numa personalidade em formação?
Para um número não tão pequeno de crianças, como essa, há a experiência do abuso. E engana-se quem pensa que apenas homens o cometem. Não. Mulheres também cometem abusos de menores. E como acontece com os abusadores homens, tanto meninas como meninos podem ser vítimas. E eles, que foram abusados, podem ser marcados por essa experiência de diversas formas, podendo alguns, infelizmente vir a tornar-se abusadores, e tirar a inocência, a pureza, a espontaneidade, a liberdade de ser criança, como eles um dia eles possivelmente foram. Foi o caso desse tio da garota? Não sei. Mas de alguma forma ele se tornou esse homem que cometeu esse crime. Uma potencial história trágica desse adulto, não o exime das responsabilidades, e ele precisa pagar pelo seu erro. Mas também ele precisa de ajuda se assim o desejar. Como será que está a mãe dele? Qual o tamanho do sofrimento dela? será que vão lembrar disso?
Me surge outra pergunta: Se essa criança não estivesse grávida haveria toda uma mobilização da opinião pública? Haveria a mesma preocupação com ela? Mas se o objetivo era usar dessa situação dramática para que fosse feito o aborto para futuramente ter argumentos jurídicos para um exercício mais disseminado e legal dessa prática, será que realmente se importavam com essa criança?
Diante disso me questiono: Queriam punir quem com o aborto do filho do agressor? Querem dizer para o homem: "Agressor que engravida crianças, olha o que fazemos com seu filho"? Isso vai punir o agressor? Isso vai corrigi-lo e evitar que ele cometa futuros crimes? Isso vai acabar com a raiz do estupro? Adultos homens e mulheres deixarão de abusar de crianças porque essa criança foi submetida a esse procedimento? Eles ficarão intimidados com essa atitude e deixarão de cometer seus crimes? Honestamente, não sei....E uma última pergunta: estão dando meios para educar jovens para que eles não se tornem esses criminosos? Certamente, não.

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